Matias Damásio confessou ter tido uma vida dramática quando era criança.

O cantor revelou em entrevista a Daniel Oliveira, no Alta Definição que passou fome, viu a morte e a guerra em Angola de perto e sofreu abusos.

«Nasci em 1982 numa fase muito difícil, crítica de Angola, em que as crianças viam cadáveres todos os dias, o que não é normal.

Viam os parentes próximos a morrer, a guerra, a água que bebíamos era com muitas dificuldades, a fome… Se não fosse Deus não sei se estaria aqui depois de tantas coisas que passei», afirma.

E continuou:

«Fui sonhando aos poucos, sofria muitos bloqueios quando dizia que queria ser alguma coisa, levava uma chapada na boca. Sempre vivi com essa realidade, nunca pensei na minha vida chegar aqui.

As  nossas referências era o pai que morreu na guerra, o tio que perdeu uma perna na guerra, havia prioridades que era o não morrer amanhã, estar vivo, que uma bala perdida não passasse por ti. A paz foi muito importante para Angola e depois com a ida para outros lugares foi possível eu sonhar», disse o cantor.

Matias Damásio disse ainda que quando se vive em pobreza extrema o único objectivo é continuar vivo. «Dá-se valor à vida e ao próximo, dá-se valor às coisas pequenas como ter almoço e jantar, beber um pouco de água, coisas normais mas que na altura eram extremamente diferentes. Não comer durante o dia ou não ter uma refeição era uma coisa comum».

O cantor tinha 12 anos quando foi abusado por uma mulher mais velha que lhe prometeu comida. «Fui abusado por uma mulher adulta, na altura não tinha consciência que era uma coisa tão má e não me pesou tanto.

Achei até muito interessante no sentido de como foi em troca de bens alimentares fiquei tranquilo. Só percebi que sofri abuso muito mais tarde… hoje às vezes lembro-me disso, é uma coisa que doí, é horrível. Volta e meia ela falava comigo e a coisa acontecia. Era ela que propunha», disse.

A abusadora era uma pessoa próxima da família. «Era muito próxima da minha mãe, mas eu nunca disse à minha mãe. Finjo que isso não existe mas lembro-me como se fosse hoje, foram várias e várias noites. Era uma vizinha, já devia ter uns 40 e tal anos (…) Por sorte ela mudou-se, nunca mais a vi cara à cara».

Os abusos sexuais tiveram consequências na vida amorosa. «Quando me apaixonei foi um problema grande. Ela [a abusadora] obrigava-me a pôr a língua, a fazer a introdução com aquele peso enorme, era uma mulher mais forte (…) Ultrapassei sozinho, tentando esquecer. Às vezes que caí pensei que não fosse levantar mais».

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